sexta-feira, 28 de março de 2014

A última pergunta


A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia 21 de maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em direção à luz. [...]

Por décadas, Multivac ajudou a projetar naves e enredar as trajetórias que permitiram ao homem chegar à Lua, Marte e Vênus, e para além destes planetas [...]

Lentamente Multivac acumulou conhecimento suficiente para responder questões mais profundas com maior fundamentação [...]

Então foi indagado: A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida?
Multivac mergulhou em silêncio. As luzes brilhantes cessaram, os estalos distantes pararam. E então, quando os técnicos assustados já não conseguiam mais segurar a respiração, houve uma súbita volta à vida no visor integrado àquela porção de Multivac. Cinco palavras foram impressas: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

(Passado alguns milhões de anos a pergunta persistia. Multivac agora estava aperfeiçoado  era chamado de AC Cósmico)

 "AC Cósmico" disse o Homem, “como é possível reverter a entropia?”
O AC Cósmico disse, “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA”.
O Homem disse, “Colete dados adicionais.”
O AC Cósmico disse, “EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM BILHÕES DE ANOS. MEUS PREDECESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES. MAS OS DADOS QUE TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES.”
“Haverá um dia,” disse o Homem, “em que os dados serão suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias concebíveis?”
O AC Cósmico disse, “NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS.”
“Você vai continuar trabalhando nisso?”
“VOU.”
O Homem disse, “Nós iremos aguardar.”

As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após dez trilhões de anos de atividade. Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico.
A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita, agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao zero absoluto.
O Homem disse, “AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode ser feito?”
O AC disse, “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

A última mente humana uniu-se às outras e apenas AC passou a existir – e, ainda assim, no hiperespaço.
 A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o homem. Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência. A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender. No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis. Um intervalo mensurável foi gasto neste empreendimento. Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia.

Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso.
Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, AC organizou o programa. A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.
E AC disse:
“FAÇA-SE A LUZ!”
E fez-se a luz.


(A Última Pergunta - Isaac Asimov, 1956)

segunda-feira, 17 de março de 2014

Daemon


O inferno são os outros
Estranhos invasores do meu espelho
Refletindo uma imagem distinta e igual a minha
Como indivíduos fragmentados

Quando a gente abre os olhos, o sonho se fecha
Náufrago de um mar de desilusões
Diferentes percepções sobre uma mesma ideia
Mais cedo ou mais tarde tudo se transforma no seu contrário

Afinal, ninguém é uma ilha
Todos são parte do mesmo continente
Desorganização organizada
Fazendo sentido na escuridão do mero ser

Emancipação do ego
Descansando à sombra do falso eu
Uma luz no fim do túnel para o eu perdido
Nas profundezas do eu negado

As escolhas nos empurram por toda parte o tempo todo
O arbítrio e a razão são servos da vontade
Mas não há nada que me prenda a você,
A não ser você, no eu mesmo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Ex Nihilo Nihil Fit


Eu sempre me debato com essas questões base, e, sinceramente, penso daqui, formulo dali, vejo uma teoria, outra e mais outra, e, quase sempre chego ao mesmo lugar:

A premissa de que "nada surge do nada" é contrária à lógica.

Por quê?

Porque, cientificamente é simplesmente impossível que todas as coisas tenham tido um início. Se tudo o que existe um dia teve um início, então teria havido um tempo em que nada existia, e pela lógica essa situação persistiria e continuaria sempre a não existir nada, e, não haveria nem mesmo o "sempre" durante o qual nada existiria.

O nada não pode produzir coisa alguma.
O nada não pode criar.
A ideia de autocriação é mais absurda ainda, porque para que alguma coisa criasse ou produzisse a si própria, teria de ser antes de existir (fere a lógica).

Sabemos, ainda pela lógica, e pela razão da maioria esmagadora de cientistas, que se as coisas existem hoje, então deve ter havido algo que não teve início.

A pergunta central é: o quê ou quem seria?

Alguns estudiosos como Carl Sagan se valem da ideia de que no universo algo (o cosmo, como ele chama) que não foi criado (não teve início) deu origem a todas as coisas.

Entretanto, eu chamo a atenção para a clássica lei da não-contradição, que diz que algo não pode existir e não existir no mesmo espaço e no mesmo tempo.

Logo, a ideia de que algo pertencente a mesma ordem e gênero, ou seja, neste universo, é o "fenômeno criador" das coisas, fere a lógica da não-contradição.

Mas, se pensarmos em algo transcendente, isto quer dizer, algo diverso, algo de outra ordem, outro gênero e acima e além (espaço-tempo), a coisa começa a fazer sentido.














segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Mimimizando



O homem está disposto a sacrificar quase tudo para seu desenvolvimento pessoal, menos o seu sofrimento. Ele é inútil, contra producente e descartável em qualquer situação: é uma expressão de tudo aquilo que você não quer ser. E ainda assim ninguém quer se livrar do próprio sofrimento.

A expansão da consciência exige sacrifícios. Fica claro com o passar do tempo que tudo o que é necessário sacrificar é o que não era verdadeiro. Expansão de consciência não é passeio no parque, é verdade pura e simples, mentira e verdade não podem conviver, expandir a consciência é vivenciar a verdade e remover o que é falso.

Cabe aqui uma reflexão sobre o que é, e o que não é a expressão de uma emoção negativa. É muita fácil diferenciá-las: uma expressão de emoção negativa, NUNCA vai resolver a situação. É reclamar da fila do banco para a pessoa da frente, é se colocar na posição de vítima do mundo e expôr-se a vista de todos, gritar o seu descontentamento com qualquer coisa sem fazer absolutamente nada para transformar, aceitar ou compreender essa situação. É falar mal de alguem que não esta presente para se defender, é a indireta que visa ofender ao invés de resolver, um julgamento moral. Inveja, raiva, soberba, a lista é imensa. Expressão negativa é toda e qualquer manifestação, interna ou externa que visa alimentar um ego ferido ou inchado.

Vamos conhecer algumas possíveis causas para a expressão dessas emoções:
Reclamamos porque isso nos dá um pseudo controle do problema, quando vomitamos nossas reclamações nos outros momentaneamente somos os donos da situação, podemos manipulá-la de várias formas dando o contorno que quisermos, nos transformando em vítimas ou heróis de uma situação qualquer. O ego é desesperado por controle, poder sobre os outros e sobre as situações: ele se debate, clama em prantos ao mundo que se adeque a ele. O resultado é uma história sofrida com um mártir se gabando ou de uma vítima indefesa diante de um monstro terrível.

Expressamos emoções negativas pois vivemos em uma sociedade de chorões, criamos grupos de suporte para nos apoiar nessas situações, dessa forma recebemos energia na forma de atenção. Quanto mais reclamamos mais energia ganhamos. Desde a queda e a separação da fonte, ou qualquer outro mito que explique nosso distanciamento do Divino, buscamos formas de nos conectar com a energia do universo, na maior parte das vezes, a forma é externa, ou seja tentando ganhar energia do outro, obviamente essas formas são fadadas ao fracasso já que a fonte real está dentro de nós. Buscar energia do outro é inútil como tentar matar a sede com água do mar, você acredita que esta saciando sua sede de energia quando na verdade está se afastando cada vez mais de você mesmo, ou no caso da água, morrendo.

As emoções negativas como tudo no universo tem um padrão de onda, é uma vibração, essa vibração  incômoda fica lá dentro de nós ou a nossa volta e uma das formas de se livrar dela é falar. O ato de falar libera uma quantidade enorme de energia. Essa é a uma das razões de se manter segredo ao realizar magia, falar sobre um ato mágico libera e dissipa a energia que estava sendo acumulada  para o propósito, o problema de reclamar no entanto é que mesmo sendo liberada é uma energia ruim que esta sendo dissipada a sua volta, é veneno e ainda que você acredite que você está se livrando dele, na maior parte das vezes acaba sendo absorvido novamente. A imagem é forte mas é real, a reclamação é como uma regurgitação energética, que se não for completamente limpa continuará impregnada em você, sendo inclusive reabsorvida se não devidamente dissipada ou transmutada. Vale dizer que o desabafo é uma forma saudável de expressão de emoções negativas. É um método muito eficaz de se livrar dessa energia, desde que seja feito com o propósito de se livrar dela  e não roubar a dos outros. O desabafo envolve um processo de manifestação da Verdade, por isso é eficiente. E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.

É mais econômico e fácil, energéticamente falando, reclamar do que encarar o problema. Para o nosso ego reclamar é uma forma de lidar com a situação, o que é uma tremenda enganação, você não está resolvendo nada e está alimentando o  pior em você, e a situação continua não sendo resolvida. O ego não discrimina, energia é energia e quanto mais ele puder movimentar melhor. Por isso gostamos  tanto de reclamar e criticar: somos máquinas construídas num ambiente onde esse é o padrão, reclamar de tudo e não fazer nada para mudar. Mudar exige assumir responsabilidade por seus atos e pelas consequências de seus atos. Parar de reclamar é um sacrifício que o ego não está disposto a fazer. Reclamar e mimimizar é energia fácil, rápida e disponível, a reclamação é a gordura açucarada frita das emoções, e faz tão mal quanto.

Compreender a velocidade e o nível de desenvolvimento diferente dos corpos é fundamental nessa equação. Falta controle e consciência do corpo emocional, ele é o mais rápido de todos os corpos, é o primeiro a reagir na maioria das situações. É uma constatação simples, basta observar todo e qualquer ato comum e ordinário em sua vida que em geral você costuma reclamar, observe como primeiro você tem uma reação emocional instantânea, logo em seguida essa emoção se manifesta no seu corpo físico de alguma forma: tensão, dor, ranger de dentes ou qualquer tipo de desconforto físico. Muito tempo depois, minutos, horas ou dias, é que você revisita a situação dentro de um aspecto racional, espiritual ou até mesmo emocional consciente e enxerga um padrão ou uma razão por detrás do ocorrido fazendo você se roer de embaraço ou qualquer outro sentimento, que pode desencadear todo o ciclo novamente. Isso ocorre pela nossa falta de consciência e prática com as oitavas superiores do corpo emocional, ele está acostumado a se alimentar de lixo e quando vê a possibilidade de se alimentar disso salta na frente dos outros. Quantas vezes você de fato treinou seu corpo físico a responder corretamente a situação de estresse, medo, raiva ou  sua mente, analisando as situações em que se envolve de forma independente do emocional. Não discriminemos o corpo emocional ele  é maravilhoso e poderosíssimo se usado para o propósito de lhe desenvolver então é indescritível, no entanto exige muito cuidado e reponsabilidade ao usá-lo.

Não expressar emoções negativas não significa engolir sapos, significa não alimentar o câncer da reclamação, colocar sua energia em outra coisa, no que vai resolver e se não for possível resolver, aceite como é, compreenda, seu julgamento negativo não vai fazer com que algo melhore. Desafie a si mesmo a expressar suas emoções com intenção clara e propósito elevado, ou se for inevitável a expressão negativa assuma para si mesmo que o que esta prestes a fazer ou que fez é um mimimi. O primeiro passo para a mudança é o reconhecimento.

By Project Mayhem

terça-feira, 26 de junho de 2012

Si vis pacem, para helium




"Chamamos hoje os deuses de "fatores", palavra que provém de "facere" (fazer). Os que fazem ficam por detrás dos cenários do teatro do mundo. Tanto no grande, como no pequeno. Na consciência, somos nossos próprios senhores; aparentemente somos nossos próprios "fatores". Mas se ultrapassarmos o pórtico da sombra, percebemos aterrorizados que somos objetos de fatores. Saber isso é decididamente desagradável, pois nada decepciona mais do que a descoberta de nossa insuficiência"


(Carl Jung in Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Truth Hurts



Andei pensando no "estilo de vida Tyler Durden" nos últimos dias. Um tanto quanto drástico, mas funcional...

É irracional pensar que se pode ter controle sob cada aspecto da vida. Certo!? Nos debatemos, angustiados com questões mil de nossas vidas: dinheiro, profissão, status, filhos... Nos vemos exaustos, porque tal qual no filme clube da luta, nos auto socamos a cara o dia todo, todos os dias. Quebramos nossas cabeças em busca de... conforto emocional.

"Será que não vou me libertar de suas regras rígidas?
Será que não vou me libertar de sua arte inteligente?
Será que não vou me libertar dos pecados e do perfeccionismo?
Digo: evolua, mesmo se você desmoronar por dentro"

Porque afinal de contas...

"Nada é estático
Tudo é movimento
E tudo está desmoronando
Esta é sua vida
[Melhor do que isto não pode ficar]
E ela acaba um minuto por vez"

Temos uma "neurose" nata que tenta nos manter dentro de nossas bolhas fantasiosas, pra evitar que soframos, buscamos uma resposta em cada esquina, no primeiro "milagreiro" que nos ofereça "paz", nos auto sabotamos.

"Com relação à distribuição dos destinos, persiste a desagradável suspeita de que a perplexidade e o desamparo da raça humana não podem ser remediados. Isto justifica o anseio do homem pelo pai e pelos deuses, que mantém sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino, particularmente a demonstrada pela morte, e compensá-los pelos sofrimentos e privações que a vida lhe impôs" (Freud)

Só que depois de apanhar um pouco, começamos a nos questionar, e, a "vida" revela o caminho: Primeiro vem o "confronto", o "espelho", o "inconsciente revelado":

"Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seríamos milionários e estrelas do rock. Mas não seremos. Aos poucos tomamos consciência do fato, e estamos ficando muito, muito putos com isso" (Durden)

Passado o "cair na real" começam a surgir algumas fases tipo "revolta", "desespero", "inconformismo", depois começamos a perceber que não há nada que possamos fazer, porque não temos o controle, e por fim, passamos da morte do "eu cego" para o renascimento do "eu revelado", então, "desapego", "deixar fluir", "carpe diem", "neurose not" e "stop mimimi" começam a fazer todo o sentido.

"Somente após uma desgraça conseguirá despertar
Somente depois de perder tudo, poderá fazer o que quiser" (Tyler)

Dramático, como o cinema tem que ser, mas aí vem um homem da ciência e diz exatamente a mesma coisa:

"O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera. Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear o fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba. Se abandonarmos, deixarmos de lado, e de algum modo esquecermo-nos excessivamente de algo, corremos o risco de vê-lo reaparecer com uma violência redobrada" (Carl Jung)


Do ensaio da cegueira nata, seguido do clube da luta interna, passado pela catarse, eis que chegaremos ao auto conhecimento, e, quiçá, possamos nos tornar pessoas melhores para nós mesmas, porque ninguém é bom com o outro se não for primeiro consigo mesmo.
Resumindo é uma luta de ID x Superego.
Não é atoa que "Tyler Durden" é subproduto da mente do Narrador.
Uma revolução mental...
Afinal, você já sabe que:


"Você abre a porta e entra
Está dentro do seu coração
Imagine que sua dor é uma bola de neve que vai curar você
Esta é sua vida
É a última gota pra você
Melhor do que isso não pode ficar
Esta é sua vida
Que acaba um minuto por vez
Isto não é um seminário
Nem um retiro de fim de semana
De onde você está, não pode imaginar como será o fundo
Somente após uma desgraça conseguirá despertar
Somente depois de perder tudo, poderá fazer o que quiser
Nada é estático
Tudo é movimento
E tudo esta desmoronando
Esta é sua vida
Melhor do que isso não pode ficar
Esta é sua vida
E ela acaba um minuto por vez
Você não é um ser bonito e admirável
Você é igual à decadência refletida em tudo
Todos fazendo parte da mesma podridão
Somos o único lixo que canta e dança no mundo
Você não é sua conta bancária
Nem as roupas que usa
Você não é o conteúdo de sua carteira
Você não é seu câncer de intestino
Você não é o carro que dirige
Você não é suas malditas calças
Você precisa desistir
Você precisa saber que vai morrer um dia
Antes disso você é um inútil
Será que serei completo?
Será que nunca ficarei contente?
Será que não vou me libertar de suas regras rígidas?
Será que não vou me libertar de sua arte inteligente?
Será que não vou me libertar dos pecados e do perfeccionismo?
Digo: você precisa desistir
Digo: evolua mesmo se você desmoronar por dentro
Esta é sua vida
Melhor do isso não pode ficar
Esta é sua vida
e ela acaba um minuto por vez
Você precisa desistir
Estou avisando que terá sua chance"


(Tyler Durden; Clube da Luta)


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Vida aleatória



A possibilidade de "acidentes aleatórios" tornarem matéria inanimada em matéria viva – cingimo-nos aqui a aspectos da Biologia Molecular. Considere-se um cálculo do famoso ateu e cientista Sir Fred Hoyle. Hoyle defendeu que até as mais simples células vivas são extremamente complexas, contendo muitos ácidos nucleicos, enzimas e moléculas, todas juntas numa sequência muito precisa. Hoyle fez um cálculo das hipóteses que teriam cada 20 aminoácidos em aparecerem na Natureza na correcta sequência para formar uma célula viva: a probabilidade é [4] de 1 em 1020 X2.000 = 1 hipótese de 1040.000: 1 seguido de 40.000 zeros= (número astronômico!). Porque os matemáticos normalmente consideram a hipótese de 1 em 1050 como uma impossibilidade matemática, Hoyle concluiu que a vida não poderia ter aparecido por intermédio de atividade aleatória terrestre, mesmo que todo o Universo fosse composto por massa pré-biótica. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Imanência




"Quanto à impossibilidade de nela se fazer circular o sentido, o melhor exemplo é o de Deus. As massas conservaram dele somente a imagem, nunca a Idéia. Elas jamais foram atingidas pela Idéia de Deus, que permaneceu um assunto de padres, nem pelas angústias do pecado e da salvação pessoal. O que elas conservaram foi o fascínio dos mártires e dos santos, do juízo final, da dança dos mortos, foi o sortilégio, foi o espetáculo e o cerimonial da Igreja, a imanência do ritual - contra a transcendência da Idéia. Foram pagãs e permaneceram pagãs à sua maneira, jamais freqüentadas pela Instância Suprema, mas vivendo das miudezas das imagens, da superstição e do diabo. Práticas degradadas em relação ao compromisso espiritual da fé? Pode ser. Esta é a sua maneira, através da banalidade dos rituais e dos simulacros profanos, de minar o imperativo categórico da moral e da fé, o imperativo sublime dosentido, que elas repeliram. Não porque não pudessem alcançar as luzes sublimes da religião: elas as ignoraram. Não recusam morrer por uma fé, por uma causa, por um ídolo. O que elas recusam é a transcendência, é a interdição, a diferença, a espera, a ascese, que produzem o sublime triunfo da religião. Para as massas, o Reino de Deus sempre esteve sobre a terra, na imanência pagã das imagens, no espetáculo que a Igreja lhes oferecia"

(Jean Baudrillard)


quarta-feira, 9 de maio de 2012

Novo fim




“nós precisamos, para um novo fim, também de um novo meio, ou seja, de uma nova saúde, de uma saúde mais forte, mais engenhosa, mais tenaz, mais temerária, mais alegre, do que todas as saúdes que houve até agora. [...] de uma saúde tal, que não somente se tem, mas que também constantemente se conquista ainda, e se tem de conquistar, porque sempre se abre mão dela outra vez, e se tem de abrir mão!... E agora, depois de por muito tempo estarmos a caminho dessa forma, nós, argonautas do ideal, mais corajosos talvez do que prudentes, e muitas vezes naufragados e danificados, mas, como foi dito, mais sadios do que gostariam de nos permitir,  perigosamente sadios, sempre sadios outra vez”


(Nietzsche)


Primeiro Interlúdio





Sentenças geram nosso mundo real.
Só é possível viver o que nossa linguagem pode traduzir, aludir, definir...
Realidade construída com palavras,
Como se não houvesse vida
Antes do primeiro fonema.

Letras que engendram morte e vida, guerra e paz, alegria e tristeza, amor e ódio...
O ser humano prisioneiro do próprio discurso,
Das próprias dicotomias maniqueístas que elaborou,
Ao longo dos séculos, engenhosamente, lentamente, pacientemente, na mente...

Instrumento ambíguo que salva e destrói:
Linguagem, só linguagem, nada mais...
Mas cremos numa realidade gramatical com a fé simples das crianças,
E tomamos nosso mundo de palavras como onipotente, onipresente...

Raça que julga o discurso capaz
De abarcar qualquer situação,
De explicitar quaisquer sentimentos, sensações, emoções...
Supõe resolver seus pseudo-problemas precisando conceitos e definições.

Homem: refém do som da sua voz, dos seus escritos, das suas verdades, da sua ciência...
São tantas as prisões lingüísticas que se auto-impôs!
Há que silenciar, há que se libertar
Legitimando o não-científico,
Aceitando o inefável,
Reconhecendo o indizível inerente a vida, ao mundo, a tudo, a todos, a nós...

(Ana Paula Ricci in: Realidade Linguística)


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Garota Cartesiana


"O exemplo que vos proponho é o de uma jovem paciente que se mostrava inacessível, psicologicamente falando, apesar das tentativas de parte a parte neste sentido. A dificuldade residia no fato de ela pretender saber sempre melhor as coisas do que os outros. Sua excelente formação lhe fornecia uma arma adequada para isto, a saber, um racionalismo cartesiano aguçadíssimo, acompanhado de uma concepção geometricamente impecável da realidade. Após algumas tentativas de atenuar o seu racionalismo com um pensamento mais humano, tive de me limitar à esperança de que algo inesperado e irracional acontecesse, algo que fosse capaz de despedaçar a retorta intelectual em que ela se encerrara"

(Carl Gustav Jung, in Sincronicidade)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo
Ano Novo cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido),

Para você ganhar um ano não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas
do vir-a-ser, novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia, se ama,
se compreende, se trabalha,

Você não precisa beber champanha
ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções para
arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar que por decreto da esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade,
recompensa, justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro
e gosto de pão matinal, direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo
de novo, eu sei que não é fácil, mas tente,
experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo cochila e
espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 29 de junho de 2010

O argumento da aposta de Pascal


Todos os argumentos a favor e contra a existência de Deus que ja foram examinados até agora pretendem demonstrar que Deus existe ou que Deus não existe. Todos eles pretendem dar-nos conhecimento da sua existência ou inexistência. O argumento do apostador, derivado da obra do filósofo e matemático Blaise Pascal (1623-1662), habitualmente conhecido como aposta de Pascal, é muito diferente dos outros. O seu objetivo não é proporcionar uma demonstração, mas antes mostrar que um apostador sensato deveria "apostar" na existência de Deus.
O argumento parte da posição de um agnóstico, isto é, alguém que acredita que não existem dados suficientes para decidir se Deus existe ou não. Um agnóstico acredita que é genuinamente possível que Deus exista, mas que não há dados suficientes para decidir a questão com toda a certeza.
Um ateu, pelo contrário, acredita geralmente que existem dados conclusivos a favor da inexistência de Deus.
O argumento do jogador é o seguinte: uma vez que não sabemos se Deus existe ou não, estamos numa posição muito semelhante à de um apostador antes de uma corrida de cavalos se ter realizado ou antes de uma carta ter sido voltada. Precisamos, por isso, calcular as hipóteses que temos.
Mas ao agnóstico pode parecer que tanto a existência como a inexistência de Deus são igualmente prováveis. A atitude do agnóstico consiste em ficar indeciso, sem tomar nenhuma decisão em nenhuma das direcções. O argumento do apostador, contudo, afirma que a coisa mais racional a fazer é procurar que a hipótese de ganhar seja tão grande quanto possível, ao mesmo tempo que a possibilidade de perder seja tão pequena quanto possível.
Em outras palavras, devemos maximizar os ganhos possíveis e minimizar as perdas possíveis. De acordo com o argumento do apostador, a melhor forma de alcançar este objetivo é acreditar em Deus.
Há quatro resultados possíveis:
a) Se apostarmos na existência de Deus e ganharmos (i. e., se Deus existir), ganhamos a vida eterna — um excelente prémio.
b) Se apostarmos na existência de Deus e perdermos (i. e., se Deus não existir), O que perdemos não é muito, se compararmos com a possibilidade da vida eterna: podemos perder alguns prazeres mundanos, perder muitas horas a orar e viver as nossas vidas debaixo de uma ilusão.
c) Contudo, se escolhermos apostar na opção da inexistência de Deus e ganharmos (i. e., se Deus não existir), viveremos uma vida sem ilusão (pelo menos neste aspecto) e teremos a liberdade de gozar os prazeres desta vida sem medo do castigo divino.
d) Mas, se apostarmos nesta opção e perdermos (i. e., se Deus existir), perdemos pelo menos a possibilidade da vida eterna e podemos mesmo correr o risco da condenação eterna.
Pascal defendeu que, enquanto apostadores perante estas opções, o curso de acção mais racional será acreditar que Deus existe. Assim, se tivermos razão, estaremos em posição de obter a vida eterna. Se apostarmos na existência de Deus e não tivermos razão, não estaremos em posição de perder tanto quanto estaríamos se escolhêssemos acreditar na inexistência de Deus e não tivéssemos razão. Logo, se queremos maximizar os nossos ganhos possíveis e minimizar as nossas perdas possíveis, devemos acreditar na existência de Deus.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Viva o presente!


"As cenas de nossa vida são como imagens em um mosaico tosco; vistas de perto, não produzem efeitos – devem ser vistas à distância para ser possível discernir sua beleza. Assim, conquistar algo que desejamos significa descobrir quão vazio e inútil este algo é; estamos sempre vivendo na expectativa de coisas melhores, enquanto, ao mesmo tempo, comumente nos arrependemos e desejamos aquilo que pertence ao passado. Aceitamos o presente como algo que é apenas temporário e o consideramos como um meio para atingir nosso objetivo. Deste modo, se olharem para trás no fim de suas vidas, a maior parte das pessoas perceberá que viveram-nas ad interim [provisoriamente]: ficarão surpresas ao descobrir que aquilo que deixaram passar despercebido e sem proveito era precisamente sua vida – isto é, a vida na expectativa da qual passaram todo o seu tempo. Então se pode dizer que o homem, via de regra, é enganado pela esperança até dançar nos braços da morte!"

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sinais


"Contar estrelas, constelações,
Medir nos céus imensidões,
Faz aumentar nossa solidão.
Profetas vêm, prometem mais
Pra quem disser "Amém"
Mas tempos tão globais,
Têm seus poréns, nada virtuais.
Já se escreveu que falsos Messias
Com novas magias vamos ver.
Não há crença sem recompensa,
Nem superstições
Tornam intensas as diferenças,
incompreensões.
Jerusalém sofreu demais
Cometas de Belém não são celestiais.
Nem faltarão Sete Sinais.
De volta ao templo os vendilhões,
Prá venerar deuses bufões,
Quem desta vez sacrificarão?!
E não vão dizer
Que ninguém sabia da hipocrisia
E seu poder.
Nem ciências, inteligências
Ou loucas ambições,
Nos livraram
De incoerências
Ou imperfeições"

Almir Sater

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O mundo precisa de pessoas...


Que não podem ser compradas;

Que a sua palavra é a sua honra;

Que colocam o caráter acima da riqueza;

Que possuam opiniões e vontades;

Que são maiores que seus empregos;

Que não hesitam em assumir os riscos;

Que não irão perder sua individualidade no meio de uma multidão;

Que serão honestas nas coisas pequenas e nas grandes;

Que não se comprometerão com o que é errado;

Cujas ambições não estão confinadas aos seus desejos egoístas;

Que não irão dizer que fizeram algo "porque todo mundo fez";

Que são verdadeiros com seus amigos que têm boa ou má fama, na adversidade e na prosperidade;

Que não acreditam que a astúcia, malícia e teimosia são as melhores qualidades para se alcançar o sucesso;

Que não tem vergonha ou medo de lutar pela verdade quando ela for impopular;

Que conseguem dizer "não" enfaticamente, apesar do resto do mundo estar dizendo "sim".

terça-feira, 14 de julho de 2009

Felicidade com Poucos Bens


Embora a experiência me tenha ensinado que se descobrem homens felizes em maior proporção nos desertos, nos mosteiros e no sacrifício do que entre os sedentários dos oásis férteis ou das ilhas ditas afortunadas, nem por isso cometi a asneira de concluir que a qualidade do alimento se opusesse à natureza da felicidade. Acontece simplesmente que, onde os bens são em maior número, oferecem-se aos homens mais possibilidades de se enganarem quanto à natureza das suas alegrias: elas, efectivamente, parecem provir das coisas, quando eles as recebem do sentido que essas coisas assumem em tal império ou em tal morada ou em tal propriedade. Para já, pode acontecer que eles, na abastança, se enganem com maior facilidade e façam circular mais vezes riquezas vãs. Como os homens do deserto ou do mosteiro não possuem nada, sabem muito bem donde lhes vêm as alegrias e é-lhes assim mais fácil salvarem a própria fonte do seu fervor.


(Antoine de Saint-Exupéry, in ‘Cidadela’)

A Procura do Génio

É triste pensar assim, mas não há dúvida que o Génio dura mais que a Beleza. É por isso que todos nós nos esforçamos tanto por nos cultivar. Na luta selvagem pela existência, queremos ter algo que dure e por isso enchemos as nossas mentes de entulho e factos, na esperança vã de mantermos o nosso estatuto. O homem perfeitamente bem informado, é esse o ideal moderno. E a mente do homem perfeitamente bem informada é uma coisa medonha. É como uma loja de bricabraque, só mamarrachos e pó, todas as coisas cotadas acima do seu valor.

*Oscar Wilde, in “O Retrato de Dorian Gray”

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Aos céticos de plantão


"[Ele] nunca se interrogou acerca do motivo pelo qual precisava falar continuamente sobre [religião], porque esse pensamento a tal ponto se apoderara dele. Nunca percebeu que a 'monotonia da interpretação' traduzia uma fuga diante de si mesmo ou de outra parte de si que ele teria talvez que chamar de 'mística'. Ora, sem reconhecer esse lado de sua personalidade, era-lhe impossível pôr-se em harmonia consigo mesmo.(...) Ele tornou-se vítima do único lado que podia identificar, e é por isso que o considero uma figura trágica: pois era uma grande homem..." - Parafraseando Jung

P. S. Também serve aos religiosos bitolados.

sábado, 27 de junho de 2009

Discurso do homem


Estou preocupado com sua emancipação. Meu falso moralismo mequetrefe é retocado, a cada dia, por uma nova camada de algo um pouco mais subjetivo, mas isso não evita que eu me torne demasiadamente intolerante. Chame isso de machismo, ou qualquer outra definição estéril.
Seu papel é histórico, entenda isso.
Como uma carpa você tenta distorcer a realidade e caminhar contra a correnteza. Todavia, perceba que a borboleta, por mais bela que seja, será sempre uma incurável lagarta.
E isso é o que há de real. Sempre disseram que contra fatos não há argumentos; pois bem, esse pode ser o analogado principal.
Certas inovações mais parecem contravenções, incertas à medida que afetam o meu próprio interesse.
Estou realmente preocupado com essa emancipação. Esse não querer ser, não querer ter.
Você, mulher, é e sempre terá consigo a mazela da escolha divina.
O pecado sempre foi feminino - analise por Eva.
A prostituição é feminina - analise por Maria Madalena.
Meu aval é histórico.
A mulher fora punida com a necessidade da maternidade. O homem, abençoado pelo descompromisso da criação.

sábado, 20 de junho de 2009

Mirror


O autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje.

(Jung, Psicologia do Inconsciente, pág. IX).

Inself


Não há mais deuses que pudéssemos invocar em auxílio. As grandes religiões sofrem no mundo todo de crescente anemia porque os numes prestativos fugiram das matas, rios, montanhas e animais, e os homens-deuses sumiram no submundo, isto é, no inconsciente. E supomos que lá eles levem uma existência ignominiosa entre os restos de nosso passado, enquanto nós continuamos dominados pela grande Déesse Raison que é nossa ilusão dominadora. Com sua ajuda fazemos coisas louváveis: por exemplo, livramos da malária o mundo, difundimos em toda a parte a higiene, com o resultado de que povos subdesenvolvidos aumentem em tal proporção que surgem problemas de alimentação. “Nós vencemos a natureza” é apenas um slogan. A chamada “vitória sobre a natureza” nos subjuga com o fato muito natural da superpopulação e faz com que nossas dificuldades se tornem mais ou menos insuperáveis devido à nossa incapacidade de chegar aos acordos políticos necessários. Faz parte da natureza humana brigar, lutar e tentar uma superioridade sobre os outros. Até que ponto, portanto, “vencemos a natureza”?

(Jung, A Vida Simbólica, vol. I, paragrafos 597-598).

sábado, 23 de maio de 2009

Inércia


Para muitas pessoas, a entrega talvez tenha conotações negativas, como uma desistência, certa letargia, etc. A verdadeira entrega, entretanto, é algo completamente diferente. Não significa suportar passivamente uma situação qualquer que nos aconteça e não fazer nada a respeito, nem deixar de fazer planos ou de ter confiança para começar algo novo. A entrega é a sabedoria simples mas profunda de nos submetermos e não de nos opormos ao fluxo da vida. O único lugar em que podemos sentir o fluxo da vida é no Agora. Isso significa que se entregar é aceitar o momento presente sem restrições e sem nenhuma reserva. É abandonar a resistência interior àquilo que é. A resistência interior acontece quando dizemos "não" para aquilo que é, através do nosso julgamento mental e de uma negatividade emocional. Isso se agrava especialmente quando as coisas "vão mal", o que significa que há um espaço entre as exigências ou expectativas rígidas da nossa mente a aquilo que é. Isso não quer dizer que não possamos fazer alguma coisa no campo exterior para mudar a situação. Na verdade, não é a situação completa que temos de aceitar quando falo de entrega, mas apenas o segmento minúsculo chamado o Agora.

No estado de entrega, você vê claramente o que precisa ser feito e parte para a ação, fazendo uma coisa de cada vez e se concentrando em uma coisa de cada vez. Aprenda com a natureza. Veja como todas as coisas se realizam e como o milagre da vida se desenrola sem insatisfação ou infelicidade. É por isso que Jesus disse: "Olhai os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam".

Não se entregar endurece a casca do ego, e assim cria uma forte sensação de separação. O mundo e as pessoas à sua volta passam a ser vistos como ameaças. Surge uma compulsão inconsciente para destruir os outros através do julgamento e uma necessidade de competir e dominar. Até mesmo a natureza vira sua inimiga e o medo passa a governar a sua percepção e a interpretação das coisas. A doença mental conhecida como paranóia é apenas uma forma ligeiramente mais aguda desse estado normal, embora disfuncional, da consciência.




quarta-feira, 20 de maio de 2009

Parakletos


A era cristã promoveu uma ética de perfeição em sua ênfase sobre a figura de Jesus Cristo, mas uma era genuinamente nova ou vindoura estará, para Jung, baseada sobre uma ética da totalidade, cujo foco não será Jesus, mas o Espírito Santo: "O Espírito Santo é uma reconciliação de opostos, e daí a resposta ao sofrimento no Ente Supremo que Cristo personifica". Uma Nova Era do Espírito, de acordo com Jung, apresentará não a segunda vinda de um Cristo humano, mas "a revelação do Espírito Santo a partir do próprio homem". A Era Vindoura não destruirá o Cristianismo, substituindo-o com paganismo, mas transcenderá o Cristianismo histórico substituindo a imitação de Cristo pela experiência direta e vivente do Espírito Santo. O próprio Cristo insinuou (João 16:7-13) que o Espírito Santo ou Confortador viria depois dele, não apenas para derramar as línguas do Pentecostes sobre seus discípulos, mas para impregnar toda a humanidade com o "espírito da verdade". Para Jung, portanto, uma compreensão correta da totalidade é essencial não apenas para nossa saúde psicológica pessoal, nosso bem-estar moral e ético, e nosso senso humano de sentido da vida, mas é o padrão pelo qual participamos na auto-evolução do divino. É por isto que Jung insiste através de seus escritos que nós devemos manter a tensão entre os opostos e nos movermos adiante; não devemos relaxar a tensão de modo que os opostos percam sua definição e retornem ao uroboros primevo (a tal sopa primordial): "Sem oposição não há fluxo de energia, não há vitalidade. A falta de oposição leva a vida a uma estagnação aonde quer que tal falta alcance". Jung não era um guru da Nova Era que pregava profundo relaxamento e a dissolução do estresse, mas pelo contrário, ele implorava aos outros para permanecerem conscientes de divisões, fortalecer isso, e manter os opostos em relação dinâmica. Somente então poderá a "função transcendente", que em metapsicologia junguiana seria o Confortador ou Paracleto, vir em nosso auxílio e tornar suportável a carga que estamos carregando.


quarta-feira, 13 de maio de 2009

Restos


"As verdades são os esqueletos que sobram depois que a capacidade de despertar os sentidos – de provocar arrepios – é desgastada pela familiaridade e pelo uso prolongado. Depois de retiradas as escamas das asas de uma borboleta, tem-se a transparência, mas não a beleza – a estrutura formal sem o conteúdo sensorial. Depois de desgastado o frescor da metáfora, temos a linguagem clara, literal, transparente – o tipo de linguagem atribuído não a nenhuma pessoa em particular, mas ao “senso comum”, à “razão” ou à “intuição”: idéias tão claras e distintas que é possível enxergar através delas. Por isso, se suas metáforas, como as de Euclides, Newton ou J. S. Mill, forem socialmente úteis e literalizadas, você será honrado no plano abstrato e esquecido no particular. Terá se tornado um nome, mas deixado de ser uma pessoa. Entretanto, se, como Catulo, Baudelaire, Derrida e Nabokov, seus textos produzirem (apenas ou também) arrepios, você terá uma chance de sobreviver como mais do que um nome. Talvez venha a ser, como Landor e Donne, uma das pessoas com quem um futuro Yeats esperará cear ao fim do dia.”

(Richard Rorty, Contingência, Ironia e Solidariedade, p.253)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Semi ótica


"Vocês é que se equivocam em relação a mim, achando que eu não tenho ou não posso ter outra realidade afora esta que vocês me dão, a qual é apenas sua, acreditem; uma idéia sua, aquela que fizeram de mim, uma possibilidade de ser tal como vocês a percebem, como lhes parece, como reconhecem possível em vocês- já que, sobre aquilo que eu possa ser para mim, não só vocês não podem saber nada, mas tampouco eu mesmo".

Luigi Pirandello

sábado, 2 de maio de 2009

Inside


Me pergunto agora como devo interpretar as coisas. Palavras, gestos, entonações. Me pego repensando um assunto antigo. Hoje eu sou C de confusão. Porque gostaria de saber todas as respostas pras perguntas que me faço sobre um certo incidente, mas não encontro respostas. Pudera, "a gente nunca pode julgar o que acontece dentro dos outros". Se eu soubesse o que se passa dentro dos outros a vida seria infinitamente mais fácil.

Se eu soubesse o que se passa dentro dos outros, mudaria o que acontece dentro de mim? E o que exatamente acontece dentro de mim? Essa virou a grande questão dos últimos dias.

sábado, 4 de abril de 2009

Castelo de areia


"Tenho visto as pessoas tornarem-se freqüentemente neuróticas quando se contentam com respostas erradas ou inadequadas para as questões da vida. Elas buscam posição, casamento, reputação, sucesso externo ou dinheiro, e continuam infelizes e neuróticas mesmo depois de terem alcançado aquilo que tinham buscado. Essas pessoas encontram-se em geral confinadas a horizontes espirituais muito limitados. Sua vida não tem conteúdo ou significado suficientes. Se têm condições para ampliar e desenvolver personalidades mais abrangentes sua neurose costuma desaparece"

Carl Gustav Jung

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

No controle


"Qual é meu problema?
Esse é meu problema...
Meu problema é que eu sou muito visual para ser cega,
Também auditiva lógica para ser surda,
Muito ideológica para estar em paz,
Muito compassiva para estar na guerra,
Muito louca para estar sã,
Muito sã para estar com preguiça,
Muito emocional para ser você.

Se eu pudesse ao menos parar minha cabeça de entrar em constante
infecção,
Então talvez eu poderia nadar atrás da minha própria versão de sanidade consistente.
Demônios angelicais, sonhos líquidos, montanhas transparentes, da nossa própria
realidade.

Oceanos ardentes, derretendo faces, derretendo faces, por que?
Quadros mentirosos, gritando metal, em meu controle...

Amnésia, histeria, insônia, canutações constantes até que você entre
no hospital e vire uma porcaria de um morto
Talvez minha mente tenha tudo sob controle,
Talvez eu não esteja em controle..."

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Simple Man



Discurso de posse de Obama

"Sim, o governo deve liderar o caminho da independência energética, mas cada um de nós deve fazer nossa parte para tornar as nossas casas e as nossas empresas mais eficientes. Sim, temos de dar mais chances de êxito aos jovens que caiam na vida do crime e desespero. Mas todos nós temos de fazer nossa parte como pais, para desligar a TV e ler para nossos filhos e sermos responsáveis pelo fornecimento de amor e da orientação que necessitam.

Sim, podemos discutir e debater as nossas posições apaixonadamente, mas neste momento de definição, todos nós devemos convocar a força e a graça para superar as nossas diferenças e unir esforços comuns – preto, branco, Latino, asiáticos, Nativo Americano; democrata e republicano, jovens e velhos, ricos e pobres, gays e heteros, deficientes ou não. Todos nós temos de nos juntar.

Ohio, nesta eleição não podemos permitir os mesmos jogos políticos e táticas que são utilizadas pra colocar um contra o outro e fazer nós termos medo um do outro. O desafio é demasiado elevado para nos dividir em classes e regiões e antecedentes; pelo que nós somos ou pelo que acreditamos. Porque, apesar do que os nossos adversários possam dizer, não há partes verdadeiras ou falsas neste país. Não há qualquer cidade ou região que seja mais pro-América do que em qualquer outro lugar – somos uma nação, todos nós orgulhosos, todos nós patriotas.

Existem aqueles patriotas que apoiaram a guerra no Iraque e patriotas que se opuseram à mesma; patriotas que acreditam em políticas democráticas e aqueles que acreditam em políticas republicanas. Os homens e mulheres que servem em nossos campos de batalha, alguns podem ser democratas, republicanos e Independentes, mas eles lutaram juntos e sangraram juntos, e alguns morreram juntos sob a mesma e orgulhosa bandeira. Eles não serviram a uma América vermelha ou América azul - eles serviram aos Estados Unidos da América.

Não vai ser fácil, Ohio. Nem vai ser rápido. Mas vocês e eu sabemos que é tempo para se unir e mudar este país. Alguns dos senhores podem ser cínicos e irritados com a política. Muitos de vocês podem estar desapontados e mesmo furiosos com seus líderes. Vocês têm todo o direito de estar. Mas, apesar de tudo isto, eu lhes peço o que foi pedido aos americanos em toda a nossa história. Peço a todos que acreditem – não apenas nas minhas habilidades de trazer mudanças, mas na sua habilidade. Eu sei que é possível uma mudança. Porque eu a tenho visto nos últimos 21 meses. Porque na campanha tenho tido o privilégio de testemunhar o melhor da América.

Eu a tenho visto nas filas de eleitores em torno das escolas e igrejas; nos jovens que lançam seu voto pela primeira vez, e os não tão jovens que se envolveram novamente após um longo tempo. Tenho visto nos trabalhadores que preferem a redução das suas horas a ver os seus amigos perderem o emprego; Vejo nos vizinhos que abrigam um estranho quando as inundações chegam; Nos soldados que se realistam após perderem um membro. Eu tenho visto no rosto dos homens e mulheres que eu tenho encontrado em inúmeros comícios e câmaras municipais em todo o país, homens e mulheres que falam de suas lutas mas também das suas esperanças e sonhos.

Ainda me lembro do email que uma mulher chamada Robyn me enviou depois de encontrá-la em Fort Lauderdale, Florida. Alguns dias depois do evento seu filho quase entrou na parada cardíaca, e foi diagnosticado com um problema de coração que só poderia ser tratado com um procedimento que custa dezenas de milhares de dólares. A companhia de seguros se recusou a pagar, e sua família simplesmente não têm esse tanto de dinheiro.

Em seu email, Robyn escreveu,"Só peço isto de você – nos dias em que se sinta tão cansado que não pode nem pensar em dizer uma palavra para o povo, pense em nós. Quando todos aqueles que se opõem a você o deixarem pra baixo, alcance seu mais profundo e volte com tudo".

Ohio, é isso que é Esperança – a coisa interior que insiste, apesar de todos os elementos que provem o contrário, que algo melhor está à espera na próxima curva; que insiste que existem dias melhores à frente. Se estivermos dispostos a trabalhar para isso. Se estivermos dispostos a deixar nossos receios e dúvidas. Se estivermos dispostos a chegar no mais profundo dentro de nós mesmos quando estivermos cansados e voltarmos lutando com tudo!

Esperança! Isso que manteve alguns de nossos pais e avós quando os tempos eram difíceis. O que os levou a dizer, "Talvez eu não possa ir ao colégio, mas se eu juntar um pouco a cada semana meu filho possa; talvez eu não consiga ter o meu próprio negócio, mas se eu trabalhar duro meu filho poderá abrir um só seu". Isso que levou os imigrantes de terras distantes a chegar a estas praias, e contra grandes adversidades esculpir uma nova vida para suas famílias na América; Foi o que levou aqueles que não puderam votar a marchar e organizar-se em defesa da liberdade; O que os levou a clamar "pode parecer escura esta noite, mas se eu mantiver a esperança, amanhã ela será mais clara."

Isso é o que é esta eleição. Essa é a escolha que enfrentamos neste momento. Não acredite nem por um segundo que a eleição está acabada. Não acredite nem por um minuto que os poderosos irão abrir mão do poder. Temos muito trabalho pela frente. Temos de trabalhar como se o nosso futuro dependesse disto nesta última semana, porque depende. Em uma semana, podemos escolher uma economia que premie trabalho e crie novos postos de trabalho e injete prosperidade de baixo para cima.

Em uma semana, poderemos escolher em investir em saúde para as nossas famílias, e em educação para as crianças, em fontes renováveis de energia para o nosso futuro. Em uma semana, podemos escolher esperança sobre o medo, a unidade sobre a divisão, a promessa de mudar o poder do status quo. Em uma semana, poderemos chegar juntos como uma nação, e um povo, e mais uma vez escolher a nossa melhor história. É isso que está em jogo. É isso pelo qual lutamos. E, se nesta última semana, você bater algumas portas por mim, fizer algumas ligações por mim e falar com os seus vizinhos, e convencer os seus amigos; se vocês se juntarem a mim, lutarem comigo, e me derem seu voto, então prometo isto – que não vamos apenas ganhar Ohio, que não vamos apenas ganhar esta eleição, mas juntos, vamos mudar este país e vamos mudar o mundo.

Muito obrigado, Deus vos abençoe, e que Deus abençoe a América. Vamos trabalhar!"

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Visão da Religião


Max Weber (1864-1920) tem uma visão pragmática e funcional da religião, imaginando-a não como um sistema de crenças, mas sim "sistemas de regulamentação da vida que reúnem massas de fiéis", voltando-se para o sentido que o ethos religioso atribui à conduta. Em seus textos Weber visa expor como as religiões geram ou constituem formas de ação e disposições gerais, relacionadas a determinados estilos de vida.

Na análise do protestantismo, por exemplo, vemos essa relação, quando Lutero usa a palavra Beruf tanto pra se referir à vocação religiosa como ao trabalho secular (embora o autor diga que a afinidade do protestantismo com o espírito do capitalismo e do progresso como o entendemos hoje só remonta ao início do séc. XVIII). Assim, o pedreiro passa a servir a Deus construindo casas, o padeiro, fazendo pães, o comerciante, vendendo e comprando. Nessa linha, Deus não solicitava mais imagens ou templos ornados, mas determinada disposição em relação à vida cotidiana, à inserção e ao trabalho no mundo secular; trata-se do ascetismo intramundano, que nos lembra um pouco a filosofia zen budista de procurar estar dentro do mundo (não procurando algo fora dele), praticando sua religiosidade através das ações (mesmo as mais mundanas).

A ética protestante representa uma ruptura em relação à ética católica tradicional. A negação da devoção aos santos e seus milagres, a recusa a certos sacramentos e uma nova perspectiva de relação com o sagrado e com as ascese configuraram uma religiosidade menos ritualista e mágica e mais intelectualizada. O fiel protestante, racional, disciplinado e, fundamentalmente, previsível, é também o operário capitalista, necessariamente previsível e disciplinado. Assim, Weber busca articular o ethos religioso com o ethos econômico no decurso da história. Segundo ele, pra cada formação religiosa há tipos específicos de "comunalização religiosa" e de "autoridade". Dois tipos formulados por Weber são a "igreja" e a "seita". A igreja implica um certo projeto universalista, que a coloca para além de laços tribais, familiares ou étnicos, assim como um corpo sacerdotal profissional, dogmas e cultos fundamentados em escrituras sagradas que se racionalizam e se institucionalizam progressivamente. Já a "seita" diz respeito a tipos de associações voluntárias de fiéis, que se caracterizam por uma certa ruptura com a sociedade mais geral. Os fiéis não seguem "profissionais religiosos", mas autoridades carismáticas. Interessante notar como a Igreja católica entrou num movimento de reafirmação onde está cada vez mais distante da sociedade geral, admoestando os "católicos de fim de semana" e procurando valorizar os dogmas dentro de um núcleo doutrinário, excluindo o aculturamento... Quase uma seita.

A mente dos profetas


O texto de Jung nos mostra que o inconsciente sempre tenta compensar (equilibrar) o conteúdo do consciente, geralmente (mas não necessariamente) com oposições. Quando há um desequilíbrio, causado por uma consciência falha, entra em ação a atividade automática do inconsciente, visando a geração de um novo equilíbrio. Mas Jung aponta que tal meta será alcançada sempre que a consciência for capaz de assimilar os conteúdos produzidos pelo inconsciente, isto é, quando puder compreendê-los e digeri-los. Se o inconsciente dominar a consciência, desenvol-ver-se-á um estado psicótico. No caso de não prevalecer nem processar-se uma compreensão adequada, o resultado será um conflito.

Assim, Jung nos fala que "se os conteúdos do inconsciente chegarem à consciência, como o indivíduo reagirá? Será dominado pelos conteúdos? Aceita-los-á credulamente? Rejeita-los-á? O primeiro caso significa paranóia ou esquizofrenia; o segundo torna o indivíduo um excêntrico, com certo gosto pela profecia, ou então pode fazê-lo retroceder a uma atitude infantil, apartando-se da sociedade humana; o terceiro significa a restauração regressiva da persona". Mas é o segundo caso o que mais nos interessa:

Isto equivale a aceitar a inflação, exaltada agora como um sistema. Em outras palavras, o indivíduo poderia ser o feliz proprietário da grande verdade que o aguardava para ser descoberta, o senhor do conhecimento escatológico para a salvação das nações. Tal atitude não implica necessariamente a megalomania em sua forma direta, mas sim na forma atenuada e mais conhecida do reformador, dos profetas e mártires. As mentes fracas correm o risco de sucumbir a esta tentação, uma vez que geralmente se caracterizam por uma boa dose de ambição, amor-próprio e ingenuidade descabida. Abrir a passagem da psique coletiva significa uma renovação de vida para o indivíduo, quer seja agradável ou desagradável. Todos querem agarrar-se a esta renovação: uns, porque assim aumentam sua sensação de vida, outros porque vêem nisso a promessa de um maior conhecimento, ou então esperam descobrir a chave que transformará suas vidas. No entanto, os que não quiserem renunciar aos grandes Lições sobre psicologia fala de um "tesouro enterrado no campo das representações obscuras, tesouro que jaz nos abismos profundos do conhecimento humano e que não podemos alcançar". Para Jung esse tesouro é a soma das imagens primordiais, nas quais a libido está investida, ou melhor, que constituem sua auto-representação.');" onmouseout="nd();">tesouros enterrados na psique coletiva deverão lutar, de um modo ou de outro, a fim de manter a ligação recém-descoberta com os fundamentos originários da vida. A identificação parece ser o caminho mais curto, pois a dissolução da persona na psique coletiva é um convite direto para as bodas com o abismo, apagando-se toda memória nesse abraço. Este traço de misticismo é característico dos melhores indivíduos e é tão inato em cada qual como a "nostalgia da mãe", nostalgia da fonte da qual proviemos.

Não pretendo negar, em geral, a existência de profetas autênticos mas, por cautela, começarei duvidando em cada caso individual; o assunto é sério demais para que se aceite, levianamente, alguém como um verdadeiro profeta. Se for este o caso, ele mesmo lutará contra toda pretensão inconsciente a esse papel. Portanto, se num abrir e fechar de olhos aparecer um profeta, seria melhor pensarmos num possível desequilíbrio psíquico.

Mas além da possibilidade de converter-se em profeta, há outra alegria sedutora, mais sutil e aparentemente mais legítima: a alegria de ser o discípulo de um profeta. Esta técnica é ideal para a maioria das pessoas. Suas vantagens são: o odium dignitatis, isto é, o da responsabilidade sobre-humana do profeta, que é substituído pelo otium indignitatis, que é muito mais suave. O discípulo é indigno; senta-se modestamente aos pés do "Mestre" e se protege contra os próprios pensamentos. A preguiça mental torna-se uma virtude; pelo menos, é possível aquecer-se ao sol de um ser semidivino. Pode desfrutar do arcaísmo e infantilismo de suas fantasias inconscientes sem esforço algum, pois toda a responsabilidade é deixada ao Mestre. Através da divinização do Mestre, o discípulo se exalta, aparentemente sem que o perceba. Além disso, não possui a grande verdade (que, naturalmente, não foi descoberta por ele), recebida diretamente das mãos do Mestre? É óbvio que os discípulos sempre se unem com solidariedade, não por laços afetivos, mas com o propósito de confirmar suas próprias convicções, sem esforço, engendrando uma atmosfera de unanimidade coletiva.

Há, porém, uma forma de identificação com a psique coletiva, que parece muito mais recomendável; alguém tem a honra de ser um profeta, assumindo desse modo uma perigosa responsabilidade. Outro indivíduo, por seu lado, é um simples discípulo, administrador do grande tesouro que o Mestre alcançou. Sente toda a dignidade e o peso de uma tal posição e considera uma obrigação solene, ou mesmo uma necessidade moral, denegrir todos os que pensem diferentemente; sua preocupação é fazer prosélitos e iluminar a humanidade, tal como se ele mesmo fosse o profeta. São estas as pessoas que, se ocultando atrás de uma persona aparentemente modesta, irrompem de repente na cena do mundo, inflacionadas pela identificação com o inconsciente coletivo. Tal como o profeta, é uma imagem primordial da psique coletiva, o discípulo do profeta também o é.

Em ambos os casos, a inflação provém do inconsciente coletivo e a independência da individualidade é lesada. Mas uma vez que nem todos possuem a força de uma individualidade independente, a fantasia do discípulo é talvez a mais conveniente. As gratificações da inflação decorrente representam, pelo menos, uma pequena compensação pela perda da liberdade espiritual. Nem devemos subestimar o fato de que a vida de um profeta, real ou imaginário, é cheia de tristezas, desapontamentos e privações; assim, pois, o bando de discípulos e a gritaria dos hosanna têm o valor de uma compensação. Tudo isto é humanamente tão compreensível, que quase deveria surpreender-nos se conduzisse a algo mais além.

(Saindo da Matrix)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira


"Se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar"

(Saramago)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Análise do Homem


A doutrina de que o egoísmo é o mal supremo e de que amar a si mesmo exclui amar os outros não se restringe de maneira alguma apenas à Teologia e à Filosofia, tendo se tornado uma das idéias correntes proclamadas no lar, na escola, no cinema e nos livros; com efeito, em todos os meios de sugestão social. “Não seja egoísta” é uma frase que foi usada para impressionar milhões de crianças, em gerações sucessivas. Seu significado é um tanto impreciso; a maioria das pessoas diria que significa que não se deve ser egoísta, sem consideração ou preocupação com os outros.

Na verdade, geralmente quer dizer mais do que isso. Não ser egoísta implica não se fazer o que se quer, desistir de suas próprias vontades em benefício dos que detêm autoridade. “Não seja egoísta”, em última análise, tem a mesma ambigüidade que possui no calvinismo. Além de seu sentido óbvio, quer dizer “não ame a si mesmo”, mas submeta-se a algo mais importante do que você, a um poder exterior ou a sua interiorização, o “dever”. “Não seja egoísta” se transforma em uma das mais poderosas ferramentas ideológicas para suprimir a espontaneidade e o livre desenvolvimento da personalidade. Sob a pressão desse slogan, pede-se à gente todo sacrifício e submissão completa; somente são “desinteressados” os atos que não atendem ao indivíduo, mas a alguém ou a algo a ele estranho.

Esse quadro, devo repetir, é de certa forma unilateral. Assim como ocorre com a doutrina de que não se deve ser egoísta, também há muita propaganda da tese oposta na sociedade moderna: tenha em mente suas vantagens, aja de acordo com o que for melhor para si; fazendo assim você também estará agindo para o maior proveito de todos.

Com efeito, a idéia de que o egoísmo é a base do bem-estar geral constitui o princípio sobre o qual se ergueu a sociedade competitiva. É de estarrecer como dois princípios aparentemente tão contraditórios puderam ser ensinados lado a lado na mesma cultura; quanto ao fato, porém, não há dúvida. Uma conseqüência dessa contradição é a confusão do indivíduo. Dividido entre essas duas doutrinas, ele fica seriamente inibido para integrar sua personalidade. Essa confusão é uma das fontes mais expressivas da perplexidade e atarantamento do homem moderno.

A doutrina de que o amor a si mesmo é idêntico a “egoísmo” e uma alternativa para o amor a outros invadiu a Teologia, a Filosofia e o ideário popular (…) Acodem as seguintes perguntas: (…) será o amor a si próprio o mesmo fenômeno que o egoísmo, ou serão eles opostos entre si? Outrossim, será o egoísmo do homem moderno uma preocupação consigo mesmo como indivíduo com todas as suas potencialidades intelectuais, emocionais e sensuais? Não terá ele se convertido em um apêndice de seu papel sócio-econômico? Será o egoísmo idêntico ao amor-próprio ou não será ele causado pela própria falta deste? (…)

Egoísmo e amor-próprio, longe de serem idênticos, são de fato opostos. A pessoa egoísta não ama a si mesma demasiadamente, mas muito pouco; com efeito, ela se detesta. Essa falta de ternura e desvelo por si mesma, que é apenas uma expressão de sua falta de produtividade, deixa-a oca. Ela forçosamente se sente infeliz e ansiosamente preocupada em agarrar com avidez as satisfações da vida que ela se impede a si mesma de conseguir. Parece inquietar-se por demais consigo, mas na verdade o que faz é tão só uma malograda tentativa de disfarçar e compensar sua deficiência para cuidar de seu verdadeiro eu. Freud alega que a pessoa egoísta é narcisista, como se tivesse retirado seu amor dos outros e o tivesse voltado para a própria pessoa. É fato que os egoístas são incapazes de amar a outros, mas não são tampouco capazes de amar a si mesmos.


ERICH FROMM

Transfiguração


Temos a tendência de pensar em glória como algo a ser atingido através de vitórias extraordinárias num esporte, de realizações comerciais ou por meio da forma pessoal. Na Bíblia, porém, glória tem a ver com o brilho radiante, ligado ao transcendente.
Em alguns momentos cruciais, como na transfiguração, isso se torna claro.
Vejamos, a palavra grega para transfiguração é metamorphoomai, da qual se deriva nossa palavra metamorfose. Denota uma mudança de forma, como, por exemplo, a transformação que ocorre com a borboleta.
O prefixo "trans" significa literalmente "através de". Na transfiguração, um limite ou barreira foi transposta. Podemos chamar de cruzar a linha entre o natural e o sobrenatural, entre o humano e o divino.
A transfiguração cruzou a fronteira das dimensões e entrou na esfera de divino. Na transfiguração, uma luz radiante na figura de Cristo é relatada. Essa luz foi a manivestação visível de que a barreira tinha realmente sido transposta.
Existem algumas similaridades entre esta manifestação de glória e brilho. As diferenças, contudo, são significativas. Enquanto a glória divina refletiu no rosto de Moisés, no episódio da tábua dos mandamentos, ela resplandeceu de Cristo na transfiguração, evidenciando que a fonte era Dele.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

E eu estou aqui


"você pode não acreditar nisto
mas há as pessoas
que passam pela vida com
muito pouca
fricção de angústia.

eles se vestem bem, dormem bem.
eles estão contentes com
a família deles.
com a vida.

eles são imperturbáveis
e freqüentemente se sentem
muito bem.
e quando eles morrem
é uma morte fácil, normalmente durante o
sono.

você pode não acreditar nisto
mas tais pessoas existem.
mas eu não sou nenhum deles.

oh não, eu não sou nenhum deles,
eu não estou nem mesmo próximo
para ser um deles.

mas eles
estão lá ...

e eu estou aqui."

(Charles Bukowski)